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Bíblia Online

EVANGELHO QUOTIDIANO

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"Cristo, Verbo Encarnado"



O Filho de Deus. Para se considerar Cristo como Palavra do Pai, é essencial explicar a origem e o significado que a proclamação de Filho implica: são duas proclamações inseparáveis.

Antigo Testamento. Ben, hebraico e bar, aramaico. 1- O sentido de anjos, aqueles que estão na presença de Deus e são seus mensageiros, Dan 3, 91. Esta passagem foi, mais tarde, ligada a Cristo pelos Padres da Igreja, enquanto os rabis rejeitavam a ideia de chamar os anjos de filhos de Deus. Em Sb 2, 18 o justo também é chamado filho de Deus. 2- O povo de Deus. Israel é o filho primogénito de Deus, Ex 4, 22. 3- O rei da descendência de David, 2Sam 7, 14; Sl 2, 7 (Tu és meu filho, eu hoje te gerei) e Sl 110, 1-4.


Paralelos gregos. O panteão grego de deuses inclui, obviamente, os filhos dos deuses, sendo Zeus o deus pai; o sentido dado a estes filhos é afastado da proclamação do NT. Os estóicos defendiam que cada homem, por possuir razão, é filho de Zeus; neste caso, é fácil perceber que a popularização deste conceito torna desnecessária a figura de um qualquer redentor ou intermediário entre Deus e os homens. As religiões mistéricas. É necessário esclarecer alguns mitos criados pelo início da fenomenologia das religiões: não existem precedentes de um filho de Deus que morre e ressuscita. Héracles, grego, Adónis, fenício, Átis, frígio e Osíris, egípcio, não são redentores do povo; são figuras que combatem o caos e vencem a morte, assegurando o poder dos deuses sobre o mundo e servindo de referência mítica para explicar os mistérios da existência humana. Não esquecendo que estes cultos tiveram maior difusão depois e não antes de Cristo.


Um redentor do céu. O redentor místico dos gnósticos aparece em livros como Actos de Tomé; estes são frequentemente apresentados como prova de influência sobre a cristologia cristã. No entanto, são obras do séc. III. E estão em polémica contra a doutrina cristã: há razões para crer que o gnosticismo se desenvolveu integrando elementos cristãos. Para os gregos, a “redenção” significa impor a ordem, o logos perdido. “A saga de Rómulo” de Ennio e Plutarco afirmam a descida daquele personagem ao mundo com uma missão e que termina numa ascensão: é essencial recordar que se trata de uma perspectiva neo-platonista que nega, por exemplo, qualquer hipótese de poder haver ressurreição corporal.
A presença de deuses entre os mortais é antiga (Odisseia) e nos Actos aplicada a Paulo e Barnabé. Mesmo no caso de esses deuses se relacionarem com os mortais, mantêm a sua condição distinta: os seus corpos são uma ilusão e eles não podem na realidade morrer. Entre os judeus, sobressai o chamado “metatron”; é o próprio Henoc que é entronizado ao lado de Deus como todo-poderoso, colocado acima dos anjos e príncipe do mundo. Outros casos são o apócrifo “A oração de José”, em que Jacob é chamado de um arcanjo encarnado, criado antes de todas as outras coisas: depois da sua vida, ele regressa ao lugar que antes lhe pertencia no céu.


A formulação de fé do NT. Rom 1, 3-4 é uma antiga fórmula de fé e que estabelece 2 pontos essenciais: a) a sua ascendência é davídica, portanto messiânica; b) ele é constituído Filho de Deus na glória de Deus, uma vez que ressuscitou dos mortos. Jesus é Messias porque rei dos judeus e é Filho pela ressurreição; o que liga estes 2 últimos elementos? Cf. o uso desta expressão em Paulo (Rom 8, 3. 29, 32; Gl 1, 15-16; 4, 4). Jesus é ressuscitado em continuidade com a sua intimidade com aquele a quem ele chama de Abba (Mc 14, 36; Rom 8, 15; Gl 4, 6).
Mas o verdadeiro argumento parte da Escritura: 2Sam 7, 12-14 base para a formulação que vimos em Rom 1 (bem como Lc 1, 32-33; Act 13, 33-34; Heb 1, 5). O texto de Samuel e o Salmo 2 são a base da cristologia das primeiras comunidades. Esta surge portanto como um reflexo das esperanças messiânicas profundamente judaicas. Tendo em conta que “Cristo é o fim da lei”, Rom 10, 4, então ele substitui a Torah, e isso sim, é uma afirmação forte e escandalosa.

O conceito de palavra (Logos, rhema, davar, millah, emer, )

Filosofia Grega. Heráclito foi o primeiro a usar logos, no sentido de proporção, explicação. É possível que ele entendesse também um princípio cósmico responsável pela ordem do mundo; mesmo assim, tratava-se de um conceito material e extensivo do fogo. Em Platão o conceito é um discurso ou o próprio pensamento que passa para os lábios; o discurso racional é o nível mais alto do existir, embora não garanta conhecimento a partir dos sentidos; o discurso é elevado porque leva à essência das coisas (a ousia). Para Aristóteles, o logos é definição, razão e discurso; é a racionalidade que distingue homens de animais. É possível ao homem agir correctamente se atender às normas ditadas pelo raciocinar correcto (orthos logos).
Para os estóicos Deus e a realidade eram a mesma coisa, sendo o logos o elemento racional que controla e orienta o universo. Era assim o elemento activo da realidade enquanto a matéria sem qualidade era o elemento passivo. O logos era também material, embora fosse parte da própria natureza dos homens, estava espalhado nos elementos naturais como sementes (logos spermatikoi). O platonismo ecléctico (80 aC- 220 dC) distinguia 2 aspectos da divindade, o primeiro era a transcendência, o estar separado do mundo; o outro era o poder activo que dava ordem a tudo no universo. Este último era designado por alguns destes filósofos como logos.


A versão Setenta. A versão grega do AT usa logos e rhema para traduzir davar, millah e emer. Rhema predomina no Pentateuco e logos nos livros proféticos, provavelmente porque logos abrangia mais facilmente o sentido de oráculo ou provérbio. A tradução de davar por logos implicou que, na diáspora, se estendeu o sentido de algumas passagens bíblicas que ganharam outra dimensão filosófica (cf. Sl 33, 6; Sir 39, 17-18).
A especulação judaico-helenista. Filão de Alexandria (20aC-50dC); ele tentou aplicar a filosofia para descodificar as escrituras. Sob influência do platonismo, distinguiu o logos como imagem de Deus (Ele próprio inacessível), o mais elevado de todos os seres e que serve de modelo a todos os outros; é ele o instrumento que dá ordem ao mundo. O logos tem assim o poder criador e de governo. Ele liga o poder criador à palavra Elohim e o de governo a Senhor (kyrios) que traduzia o hebraico Javeh na LXX. Em Gen 1, 7 o homem é criado de acordo com a imagem de Deus e não como sua imagem (algo que está na versão grega e não no hebraico). Filão vê aqui então o homem formado de acordo com o logos, como que em terceira mão.


O Novo Testamento. Logos comparece 331 vezes; é uma frase (Lc 20, 20), história (Mt 28, 15), uma ordem (Lc 4, 36), um provérbio (Jo 4, 37). O significado mais característico é, no entanto, o da revelação divina que se dá em Jesus; é a mensagem cristã, palavra de Jesus e palavra de Deus (Act 4, 31; 20, 32; Jo 5, 24; 12, 48; Col 3, 16). S. João faz uma espécie de resumo cristológico no seu prólogo, 1, 1-18 e merece ser estudado com algum detalhe. Os versículos 6-8 e 15 são de adição do escritor ou redactor do evangelho de João.
O logos, Targum e Midrash. Foi descoberto em 1955 o Targum Neofiti; aí se explicita, no midrash das 4 noites (sobre a Páscoa) que na criação a memra de Deus era a luz e brilhou; era a primeira noite. Também o Targum Pseudo-Jónatas de Gen 3, 24 usa elementos semelhantes, e uma estrutura semelhante também (Jo 1; a- Palavra=Deus, 1, 1-2; b- tudo foi feito por Ele, 1, 3; c- luz, 1, 4-5; c’- luz, 1, 6-9; b’- o mundo foi feito por Ele, 1, 10-13; a’- Palavra=Deus, 1, 14-18).


O gnosticismo. As descobertas de Nag Hammadi deram a oportunidade de revelar vários livros desta corrente religio-filosófica. A verdade é que se sabe pouco sobre quem eram e o que faziam os gnósticos, e estes textos são dos séculos II e III dC: mesmo assim, é admitido que o nível de redacção mais primitivo pode remontar ao primeiro século. No Protenoia Trimórfico, um redentor divino apresenta-se 3 vezes ao mundo; a terceira é sob a forma de logos ou filho:

Eu me revelei a eles nas suas tendas (skene) como palavra e revelei-me à semelhança da sua forma. E usei a roupa comum e escondi-me no meio deles.


Dr Teodoro Medeiros (trabalho apresentado no 1º dia da XV Semana Bíblica Diocesana 23/11/09)

domingo, 8 de novembro de 2009

Para compreender o relato de Caim


O livro do Génesis (c.4) relata que Adão e Eva geraram dois filhos, Caim (agricultor) e Abel (pastor). Ambos eram muito religiosos, oferecendo a Deus os frutos do seu trabalho: Caim, os produtos do campo, Abel, as primeiras crias do rebanho. Mas... a Deus só agradava a oferenda de Abel, desconhecendo-se a razão da preferência e o modo como Caim tomou conhecimento dessa discriminação, só se sabendo da amargura de Caim pela atitude divina. Então, Deus dirigiu-se a Caim (Gn 4,7), mas este não quis escutar Deus e começou a alimentar o ódio contra o seu irmão Abel, até que um dia o convidou para ir até ao campo, onde o atacou e matou.
Após um diálogo com Deus (Gn 4,10-12), Caim tomou consciência do que fizera e lançou um grito de profunda dor (Gn 4,13-14). Deus comoveu-se com o seu pranto e prometeu vingá-lo sete vezes se alguém tentasse matá-lo, pondo-lhe um sinal de protecção e salvação para que quem o visse o reconhecesse e respeitasse. Caim saiu da terra que costumava cultivar e refugiou-se no deserto.


Ao ler este capítulo, deparamo-nos com um Caim desfigurado, diferente da imagem apresentada pela tradição, já que, por um lado, ele é menos mau e, por outro, não nos é dito que Abel fosse bom (repare-se que Abel tem um papel secundário nesta narração bíblica: não diz uma única palavra, só padece, Deus não lhe fala. A figura principal é Caim. Em hebraico, o nome Abel significa nulidade ou vazio, enquanto Caim quer dizer adquirir). O facto de Deus ter preferido as oferendas de um mais do que as do outro, não significa que um fosse bom e outro mau. Era um facto comum na antiguidade, onde o rei, faraó ou imperador podiam escolher as pessoas como bem entendessem, sem que isso significasse critérios de moralidade, injustiça, ou desprezo pelos outros.
Mas o que mais chama a atenção é uma série de contradições e pormenores incoerentes com a História e o resto do relato, dos quais exemplificamos apenas três:

1) Se Caim e Abel são filhos dos primeiros humanos (que habitaram a terra há milhões de anos e eram recolectores, ou seja, viviam da caça, pesca e da recolha dos frutos espontâneos do solo) como é que podiam conhecer a pastorícia e a agricultura que só surgiram em 10.000 a.C. e 8.000 a.C., respectivamente?

2) Depois do seu crime, Caim afirma que o primeiro a encontrá-lo o matará (Gn. 4, 14), mas quem poderia matá-lo se não existia mais ninguém a não ser Adão e Eva?

3) No v. 17 refere-se que "Caim concebeu e deu à luz Henoc". Onde é que ele arranjou mulher? Alguns chegaram a supor que se tratasse de Eva, a sua própria mãe, pois nessa época o incesto não estava proibido.

Hoje, os estudos bíblicos ensinam que a história de Caim apresenta estas incoerências, porque passou por três etapas sucessivas até acabar no relato do Génesis.
a. No início era um conto popular, transmitido oralmente e independente do relato de Adão e Eva, onde se narrava a história do herói Caim, fundador da tribo dos caimitas, vizinhos dos israelitas. A história incluía também o seu casamento, talvez com alguma das muitas jovens pertencentes aos clãs que então habitavam o deserto e o nascimento do seu filho Henoc. Esta história seria contada pelos próprios caimitas, orgulhosos do seu fundador Caim.

b. Quando esta história chegou aos ouvidos dos israelitas, estes modificaram-na em vários aspectos. Os caimitas viviam em pleno deserto, dedicando-se à pilhagem de outras tribos e, por isso, os israelitas consideraram que era um castigo de Deus por algum delito cometido pelo seu fundador. Não sabiam qual era o delito, mas como os caimitas assolavam permanentemente as colheitas das tribos suas irmãs de raça, imaginaram que fosse um delito contra o seu irmão. Além disso, esses beduínos eram famosos pelas terríveis vinganças que perpetravam contra quem matava um dos seus membros, daí a referência que aparece no v. 15 e também é possível que a dita tribo apresentasse exteriormente algum sinal ou tatuagem. Nesta segunda etapa, a tradição hebraica transformou o herói dos caimitas num fratricida castigado por Deus a viver uma vida errante.

c. Na época do rei Salomão, a história passou a uma terceira etapa. O lavrador expulso da terra cultivável e condenado a errar para sempre, prestava-se para aprofundar a explicação sobre a presença do mal no mundo. Com alguns retoques, a história foi colocada a seguir ao relato de Adão e Eva, apesar das incoerências daí resultantes. Nessa época já se colocavam questões angustiosas como as da existência do mal e o motivo do sofrimento. O autor bíblico respondeu com a história de Adão e Eva: porque o homem desobedeceu a Deus, ao comer o fruto proibido, preferiu a sua própria vontade à do Criador e cortou relações com Ele. Ao acrescentar a história de Caim, condenado a uma vida penosa e dura, por faltar contra o seu irmão, completou o seu ensino, dizendo que o mal cresce no mundo pelos delitos contra os outros homens.

Assim, trata-se do segundo pecado original. O relato de Adão e Eva (Gn 2 e 3) tinha quatro partes: ordem de Deus (não comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal; Gn2,17), desobediência do homem (comeu-o; Gn 3,6), castigo de Deus (Gn 3,14) e esperança de salvação (Deus fez a Adão e Eva túnicas de peles e vestiu-os; Gn 3,21). Também o relato de Caim e Abel apresenta as mesmas partes: ordem de Deus (se procederes bem..., se procederes mal...; Gn 4,7), desobediência do homem (Caim mata o irmão; Gn 4,8b), castigo de Deus ("serás amaldiçoado pela terra..."; Gn 4,11), esperança de salvação (o Senhor marcou-o com um sinal...; Gn 4,15b). Quer dizer, o autor pretende propor o mesmo tema que o relato de Adão e Eva: a origem do mal, mas agora com uma resposta diferente. No primeiro a explicação do mal no mundo dependia das relações do homem com Deus, no segundo depende da ruptura de relações com o irmão.

A lição de Caim é revolucionária para a sua época e pretende deixar claro que o crime contra o irmão é tão grave quanto o crime contra Deus.

(Adaptado de Ariel Álvarez Valdés, com tradução de Lopes Morgado, Revista Bíblica, nº 310)

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