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A Sagrada Escritura é o conjunto dos livros escritos por inspiração divina, nos quais Deus se revela a si mesmo e nos dá a conhecer o mistério da sua vontade.

O Antigo Testamento contém a revelação feita por Deus antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo ao mundo.

O Novo Testamento contéma revelação feita directamente por Jesus Cristo e transmitida pelos Apóstolos e outros autores sagrados. «A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas» (Dei Verbum 9)


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2017 Ano litúrgico A

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"Cristo, Verbo Encarnado"



O Filho de Deus. Para se considerar Cristo como Palavra do Pai, é essencial explicar a origem e o significado que a proclamação de Filho implica: são duas proclamações inseparáveis.

Antigo Testamento. Ben, hebraico e bar, aramaico. 1- O sentido de anjos, aqueles que estão na presença de Deus e são seus mensageiros, Dan 3, 91. Esta passagem foi, mais tarde, ligada a Cristo pelos Padres da Igreja, enquanto os rabis rejeitavam a ideia de chamar os anjos de filhos de Deus. Em Sb 2, 18 o justo também é chamado filho de Deus. 2- O povo de Deus. Israel é o filho primogénito de Deus, Ex 4, 22. 3- O rei da descendência de David, 2Sam 7, 14; Sl 2, 7 (Tu és meu filho, eu hoje te gerei) e Sl 110, 1-4.


Paralelos gregos. O panteão grego de deuses inclui, obviamente, os filhos dos deuses, sendo Zeus o deus pai; o sentido dado a estes filhos é afastado da proclamação do NT. Os estóicos defendiam que cada homem, por possuir razão, é filho de Zeus; neste caso, é fácil perceber que a popularização deste conceito torna desnecessária a figura de um qualquer redentor ou intermediário entre Deus e os homens. As religiões mistéricas. É necessário esclarecer alguns mitos criados pelo início da fenomenologia das religiões: não existem precedentes de um filho de Deus que morre e ressuscita. Héracles, grego, Adónis, fenício, Átis, frígio e Osíris, egípcio, não são redentores do povo; são figuras que combatem o caos e vencem a morte, assegurando o poder dos deuses sobre o mundo e servindo de referência mítica para explicar os mistérios da existência humana. Não esquecendo que estes cultos tiveram maior difusão depois e não antes de Cristo.


Um redentor do céu. O redentor místico dos gnósticos aparece em livros como Actos de Tomé; estes são frequentemente apresentados como prova de influência sobre a cristologia cristã. No entanto, são obras do séc. III. E estão em polémica contra a doutrina cristã: há razões para crer que o gnosticismo se desenvolveu integrando elementos cristãos. Para os gregos, a “redenção” significa impor a ordem, o logos perdido. “A saga de Rómulo” de Ennio e Plutarco afirmam a descida daquele personagem ao mundo com uma missão e que termina numa ascensão: é essencial recordar que se trata de uma perspectiva neo-platonista que nega, por exemplo, qualquer hipótese de poder haver ressurreição corporal.
A presença de deuses entre os mortais é antiga (Odisseia) e nos Actos aplicada a Paulo e Barnabé. Mesmo no caso de esses deuses se relacionarem com os mortais, mantêm a sua condição distinta: os seus corpos são uma ilusão e eles não podem na realidade morrer. Entre os judeus, sobressai o chamado “metatron”; é o próprio Henoc que é entronizado ao lado de Deus como todo-poderoso, colocado acima dos anjos e príncipe do mundo. Outros casos são o apócrifo “A oração de José”, em que Jacob é chamado de um arcanjo encarnado, criado antes de todas as outras coisas: depois da sua vida, ele regressa ao lugar que antes lhe pertencia no céu.


A formulação de fé do NT. Rom 1, 3-4 é uma antiga fórmula de fé e que estabelece 2 pontos essenciais: a) a sua ascendência é davídica, portanto messiânica; b) ele é constituído Filho de Deus na glória de Deus, uma vez que ressuscitou dos mortos. Jesus é Messias porque rei dos judeus e é Filho pela ressurreição; o que liga estes 2 últimos elementos? Cf. o uso desta expressão em Paulo (Rom 8, 3. 29, 32; Gl 1, 15-16; 4, 4). Jesus é ressuscitado em continuidade com a sua intimidade com aquele a quem ele chama de Abba (Mc 14, 36; Rom 8, 15; Gl 4, 6).
Mas o verdadeiro argumento parte da Escritura: 2Sam 7, 12-14 base para a formulação que vimos em Rom 1 (bem como Lc 1, 32-33; Act 13, 33-34; Heb 1, 5). O texto de Samuel e o Salmo 2 são a base da cristologia das primeiras comunidades. Esta surge portanto como um reflexo das esperanças messiânicas profundamente judaicas. Tendo em conta que “Cristo é o fim da lei”, Rom 10, 4, então ele substitui a Torah, e isso sim, é uma afirmação forte e escandalosa.

O conceito de palavra (Logos, rhema, davar, millah, emer, )

Filosofia Grega. Heráclito foi o primeiro a usar logos, no sentido de proporção, explicação. É possível que ele entendesse também um princípio cósmico responsável pela ordem do mundo; mesmo assim, tratava-se de um conceito material e extensivo do fogo. Em Platão o conceito é um discurso ou o próprio pensamento que passa para os lábios; o discurso racional é o nível mais alto do existir, embora não garanta conhecimento a partir dos sentidos; o discurso é elevado porque leva à essência das coisas (a ousia). Para Aristóteles, o logos é definição, razão e discurso; é a racionalidade que distingue homens de animais. É possível ao homem agir correctamente se atender às normas ditadas pelo raciocinar correcto (orthos logos).
Para os estóicos Deus e a realidade eram a mesma coisa, sendo o logos o elemento racional que controla e orienta o universo. Era assim o elemento activo da realidade enquanto a matéria sem qualidade era o elemento passivo. O logos era também material, embora fosse parte da própria natureza dos homens, estava espalhado nos elementos naturais como sementes (logos spermatikoi). O platonismo ecléctico (80 aC- 220 dC) distinguia 2 aspectos da divindade, o primeiro era a transcendência, o estar separado do mundo; o outro era o poder activo que dava ordem a tudo no universo. Este último era designado por alguns destes filósofos como logos.


A versão Setenta. A versão grega do AT usa logos e rhema para traduzir davar, millah e emer. Rhema predomina no Pentateuco e logos nos livros proféticos, provavelmente porque logos abrangia mais facilmente o sentido de oráculo ou provérbio. A tradução de davar por logos implicou que, na diáspora, se estendeu o sentido de algumas passagens bíblicas que ganharam outra dimensão filosófica (cf. Sl 33, 6; Sir 39, 17-18).
A especulação judaico-helenista. Filão de Alexandria (20aC-50dC); ele tentou aplicar a filosofia para descodificar as escrituras. Sob influência do platonismo, distinguiu o logos como imagem de Deus (Ele próprio inacessível), o mais elevado de todos os seres e que serve de modelo a todos os outros; é ele o instrumento que dá ordem ao mundo. O logos tem assim o poder criador e de governo. Ele liga o poder criador à palavra Elohim e o de governo a Senhor (kyrios) que traduzia o hebraico Javeh na LXX. Em Gen 1, 7 o homem é criado de acordo com a imagem de Deus e não como sua imagem (algo que está na versão grega e não no hebraico). Filão vê aqui então o homem formado de acordo com o logos, como que em terceira mão.


O Novo Testamento. Logos comparece 331 vezes; é uma frase (Lc 20, 20), história (Mt 28, 15), uma ordem (Lc 4, 36), um provérbio (Jo 4, 37). O significado mais característico é, no entanto, o da revelação divina que se dá em Jesus; é a mensagem cristã, palavra de Jesus e palavra de Deus (Act 4, 31; 20, 32; Jo 5, 24; 12, 48; Col 3, 16). S. João faz uma espécie de resumo cristológico no seu prólogo, 1, 1-18 e merece ser estudado com algum detalhe. Os versículos 6-8 e 15 são de adição do escritor ou redactor do evangelho de João.
O logos, Targum e Midrash. Foi descoberto em 1955 o Targum Neofiti; aí se explicita, no midrash das 4 noites (sobre a Páscoa) que na criação a memra de Deus era a luz e brilhou; era a primeira noite. Também o Targum Pseudo-Jónatas de Gen 3, 24 usa elementos semelhantes, e uma estrutura semelhante também (Jo 1; a- Palavra=Deus, 1, 1-2; b- tudo foi feito por Ele, 1, 3; c- luz, 1, 4-5; c’- luz, 1, 6-9; b’- o mundo foi feito por Ele, 1, 10-13; a’- Palavra=Deus, 1, 14-18).


O gnosticismo. As descobertas de Nag Hammadi deram a oportunidade de revelar vários livros desta corrente religio-filosófica. A verdade é que se sabe pouco sobre quem eram e o que faziam os gnósticos, e estes textos são dos séculos II e III dC: mesmo assim, é admitido que o nível de redacção mais primitivo pode remontar ao primeiro século. No Protenoia Trimórfico, um redentor divino apresenta-se 3 vezes ao mundo; a terceira é sob a forma de logos ou filho:

Eu me revelei a eles nas suas tendas (skene) como palavra e revelei-me à semelhança da sua forma. E usei a roupa comum e escondi-me no meio deles.


Dr Teodoro Medeiros (trabalho apresentado no 1º dia da XV Semana Bíblica Diocesana 23/11/09)

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